PINTAR DESENHOS? SIM, MAS NÃO QUALQUER UNS


Já é mais do que óbvio que não consigo dar descanso às minhas mãos, e por isso estou sempre a investigar, sempre a tentar arranjar estratégias para contribuir com o meu trabalho nas crianças.

No decorrer desta investigação, li sobre o impacto de colorir desenhos. Não estava preparada para o que li, porque algo que há primeira vista parece muito inofensivo e benéfico, na realidade consegue ter repercussões negativas. Sim, repercussões negativas.

É verdade que a atividade de pintar desenhos é didática e apresenta muitos benefícios para as crianças (e para os adultos). Para além de trabalhar a motricidade fina, a concentração, sentido crítico (e estético) na escolha das cores, e de ser uma atividade relaxante, considero que existem alguns pormenores que devemos ter em atenção.

Eu vou explicar, mas antes desafio-@ a, no próximo minuto, refletir um pouco sobre os desenhos que pintamos, e que damos a pintar às nossas crianças.

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Refletiu? Observou que os desenhos têm sempre linhas muito definidas, muito ‘direitas’, e que as formas são sempre muito perfeitas. Mais, reparou que os animais são desenhados de forma a embelezar os mesmos? E não são só os animais, são muitos outros elementos do nosso quotidiano. O desenho de um porco é igual ao porco? O desenho de uma maçã é igual à maçã?

Eu sei que gostamos de desenhos “bonitos” (apesar de também ter algumas coisas sérias para dizer em relação a esse tópico, mas isso fica para outro dia), mas a realidade é que esta falsa realidade nos desenhos acaba por ter dois aspetos menos positivos.

Em publicações anteriores já partilhei o facto de me fazer muita confusão o facto de as crianças terem bastante medo de experimentar – ou fazer – apenas porque têm medo de errar ou de não conseguir fazer.

E acredito que parte deste receio deriva dos desenhos que pintam. Pense comigo, se os desenhos são uma ferramenta para as crianças contactarem com o mundo, estes desenhos são um modelo em várias situações. Como as crianças pintam desenhos com linhas e formas “bonitas e perfeitas”, quando os seus desenhos não correspondem ficam desanimadas e frustradas. Eu já vi isto a acontecer muitas vezes com os meus alunos.

Mas há mais. Quando estava no secundário, nas aulas de desenho de observação, a minha professora chamava muito à atenção para a forma como nós desenhávamos porque na realidade não sabíamos observar. Ou seja, como vamos construindo uma bagagem de referências visuais baseadas no conteúdo que consumimos ao longo do nosso percurso, se esta bagagem contiver muitas referências baseadas nos desenhos de pintar, vão existir muitas formas e figuras “bonitas e perfeitas”, mas irreais.

Assim, após uma reflexão sobre todos estes pormenores, e de modo a tirar a maior vantagem de uma atividade tão benéfica como é o caso de pintar desenhos, decidi criar os “Desenhos imperfeitos”.

E em que consistem? Basicamente são desenhos que apresentam um lado humano, com linhas com falhas, com pequenos erros anatómicos, mas que são desenhos reais.

São como os desenhos que todos fazemos.

E quer saber mais uma coisa? Eu dei estes desenhos imperfeitos às crianças, para elas pintarem, e o resultado foi encantador.

Mas essa partilha fica para uma próxima! Fique atento, porque os desenhos imperfeitos vieram para ficar!!


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