Na publicação anterior, partilhei que levei para a sala de aula a minha caixa de cartão branca, onde guardo papeis “rejeitados” que não merecem ir para o lixo.
Depois de colocar a caixa na mesa, e de as crianças responderem à pergunta “Quem é que já se enganou enquanto fazia um desenho?”, e de reconhecerem que todos erramos e que é normal, passei para a fase da introdução da atividade.
Apesar de todos – ou quase todos – terem reconhecido que às vezes se enganam, eu, enquanto adulta e professora, senti a necessidade de lhes confessar que também me engano enquanto faço um desenho. E mais, disse-lhe que quando me enganava a fazer algo e não queria continuar o desenho, em vez de deitar os papeis ao lixo, que os guardava numa caixa. Guardava porque acreditava que podiam servir para outra tarefa, que podiam ser reaproveitados.
Depois desta partilha, lancei-lhes o desafio de descobrirem os papeis que estavam dentro da caixa, e que tentassem fazer desenhos e/ou colagens com os meus “rejeitados”*. E, a partir deste momento, aconteceram coisas que eu não estava à espera.
Primeiro, todos ficaram muito curiosos por descobrir os diversos papeis que se encontravam dentro da caixa; estavam mesmo muito curiosos. Depois, vi crianças encantadas com papeis que, para mim – talvez por não serem novidade – eram banais; a descobrir formas onde eu não as encontrava; a transformar desenhos em objetos, em novos desenhos, em colagens… bem, eu vi muitas coisas bonitas a serem criadas através de papeis que, se reagisse a um primeiro instinto, seriam deitados ao caixote do lixo.
Confesso que nunca pensei que esta simples tarefa proporcionasse resultados tão positivos, mas, como deve imaginar, foi algo que me deixou muito satisfeita.
Mas há mais. Nos dias em que realizei esta atividade com as crianças, senti que estavam mais criativas, e com menos entraves em criar, comparando com quando é necessário pensar em algo através de um tema, de raiz. Isto porque – e brincando um pouco com as palavras – esta caixa estava carregada de semente de ideias, que só precisaram de ser um pouco regadas e cuidadas, e a planta cresceu rápido.
Partilho esta experiência com as crianças para reforçar o impacto que a Educação Artística consegue gerar no desenvolvimento das crianças, ao mesmo tempo que educa e reforça a importância do reaproveitamento, reciclagem e reutilização.
Deixo estas reflexões.
*Com as crianças não utilizei o termo rejeitados. Partilhei apenas que a caixa continha papeis de desenho que não correram bem, mas que guardei para mais tarde utilizar para fazer algo diferente.
