É DIFÍCIL LIDAR COM O ERRO


Há já alguns anos, mais concretamente desde o início da minha licenciatura em 2018, que guardo uma caixa em casa. Trata-se de uma caixa de cartão branca, banal, que aproveitei de uma encomenda que me chegou a casa. Mas, na realidade, o mais importante não é a caixa em si, mas o conteúdo que a mesma guarda.

Dentro desta caixa, ao longo do tempo, vou guardando vários papeis. Papeis que já foram cortados, pintados, desenhados, rasgados, colados, e tudo e mais alguma coisa, mas que acabaram por ser “rejeitados”.

Rejeitados? Sim! Rejeitados no sentido em que, por algum motivo, os estes papeis não satisfaziam o meu propósito do momento. Contudo, por alguma razão, que me é muito difícil explicar, não conseguia deitar estes papeis ao lixo. Sentia que ainda podiam ser úteis, que apesar de não reponderam ao que eu desejava no momento, o poderiam fazer numa outra altura.

Assim, em vez de colocar estes papeis no caixote do lixo, guardo-os dentro da caixa branca. Confesso que não procuro esta caixa com muita frequência, mas a culpa não se deve tanto ao potencial dos papeis, mas sim à minha falta de tempo. Porque a realidade é que estes papeis possuem potencial, e eu não fui a única a reconhecê-lo.

Como professora de artes, devo confessar que fiquei muito admirada quando, logo desde muito cedo, me apercebi que as crianças têm muita dificuldade em lidar com o erro.

Ao longo das minhas aulas, como resposta às minhas atividades, – sejam estas muito simples ou mais complexas, – tenho ouvido recorrentemente as frases “Não sei”, “Não consigo”, “Não quero”. E atenção, eu sei que esta reação é normal quando somos colocados numa situação nova, desconhecida, e em que somos desafiados a experimentar algo novo. Mas acho estranho que uma criança não tenha a abertura de experimentar algo novo, devido ao receio de fazer algo “errado”.

Neste sentido, tenho vindo a desenvolver várias atividades que ambicionam desbloquear este receio nas crianças. E para concretizar uma destas atividades, recorri a esta caixa branca que tem a capacidade de guardar os “rejeitados”.

Assim, um dia levei esta caixa para a escola. Coloquei-a em cima da mesa e, imediatamente, na cara das crianças transpareceu a curiosidade. Ficaram todos muito curiosos por descobrir o que se encontrava dentro daquela caixa branca.

Mas, antes de revelar qualquer informação sobre o conteúdo da mesma, e sobre o que iriamos fazer naquele dia, fiz uma simples pergunta: “Quem é que já se enganou enquanto fazia um desenho?”.

Confesso que estava expectante em relação às respostas que iria obter, porque estava curiosa para perceber se as crianças iriam ter receio em admitir esses pequenos enganos.

O que observei foi que, em algumas turmas os braços levantaram-se muito rapidamente, noutras nem tanto, e às vezes algumas crianças só levantavam o braço depois de outro colega também o ter feito. Porque o erro é mesmo algo difícil de admitir e de confrontar.

Contudo, com esta pergunta tão simples, aos poucos todos perceberam que errar – neste caso, quando fazemos um desenho – é algo muito natural e normal, e que acontece a todos!

Depois deste momento, partilhei com as crianças o conteúdo da caixa e lancei uma proposta de atividade, que eles adoraram. Mas esses pormenores partilharei na próxima publicação.

Fique atento!!


Leave a Reply

Discover more from Não dou descanso às minhas mãos

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading