Acredito que, quando comecei a dar aulas, me foi atribuída uma missão. A missão de mostrar o mundo às crianças, através de novas formas de aprendizagem, de descoberta e de pensamento, sem a rigidez que está comummente associada ao ensino.
E foi neste sentido que, um dia, desafiei as crianças a ver coisas invisíveis.
Como? Fizemos exercícios de apresentação do som1! Ou seja, tentamos desenhar o som!
Todos sabemos como desenhar uma flor, uma pessoa, um carro, uma casa, e muitas outras coisas, porque estas existem sobre a forma de matéria. Conseguimos observá-las. Mas e o som? Este não é visível nem palpável. Como é que conseguimos representar algo que não conseguimos ver?
Como é de esperar, não é um exercício fácil e de resposta óbvia. Mas este pormenor também era algo que queria abordar.
No início algumas crianças sentiram alguma dificuldade. Ficaram um pouco confusas. Pedi-lhes que se concentrassem na música, que captassem o ritmo. Era importante que se conectassem com a música. E, passado algum tempo já via algumas marcas a surgir nas folhas de papel.
A minha intenção consistia em induzir as crianças a desenhar ao ritmo do som. Ou seja, que os movimentos do corpo, e as consequentes marcas que surgiam no papel, fossem apenas resultado do som. Sem referências visuais.
E elas conseguiram. Marcavam a folha ao ritmo da música, o que por si só originava novos sons. Foi bonito de ser ver, e de se ouvir.
O que mais me fascina neste exercício é que tem a particularidade de não apresentar “respostas corretas”, ou seja, há total liberdade de experimentação uma vez que não é expectável um resultado específico. Isto faz com que as crianças diminuam o receio de experimentar e “errar”.
E mais bonito ainda, foi ver a cara de maravilhamento e de entusiamos das crianças. Todas ficaram embrenhadas no desenho, e fascinadas com tudo o que estava a acontecer.
No final da aula pude constatar que todos foram capazes de ver coisas invisíveis.
Todos, sem exceção!
- *Para a realização deste exercício utilizei a obra “Music for 18 Musicians”, de Steve Reich. ↩︎









